"O VENTO"
Apesar de, no momento da escrita deste rascunho, não nos chegarem bons ventos da história nem boas estórias de casamento da nação que, não tendo feito nascer o cinema, fez dele uma nação, haverá por todo o lado suficiente memória, política, pensamento e ciência para se poder afirmar que o modo como o realizador sueco Victor Sjöstrom colocou a sua questão já não é aceitável. Não, um Homem não pode vir dizer à Mulher que é dela, e só dela, que depende toda a integridade do edifício conceptual puritano. Mansplaining à parte, macho que é macho pede responsabilidade a si mesmo em primeiro lugar.
Não quer dizer que faltem aqui boas intenções. Sjöstrom sabe que, no tempo do mito, ainda não havia VAR e que, se a coisa tivesse sido observada com melhor ferramenta (como ele próprio faz no início de “O vento”), ter-se-ia com certeza percebido que foi Adão quem cometeu a falta da maçã. O único Mal que a mulher poderá praticar é não se conseguir manter ao lado do consorte enquanto este disparata como um catraio incorrigível. O abandono da esposa é o fator determinante para o despertar da insanidade de “O palhaço” ou para o descontrolo definitivo do alcoolismo do protagonista de “O carro fantasma”. Da fêmea espera-se nada menos que uma espécie de santidade conjugal – teimando o algodão simbólico da toponímia em nunca se enganar, a estação de comboio em que a Lena de “A lady to love” se apeia para ir ter com o futuro marido responde pelo nome de… “Santa Helena”.
A migração criativa, em 1923, para a terra onde os leões são menos marca que genérico, não mudou a direção para onde soprava o espírito do realizador sueco, mas tornou a sua aparência mais sofisticada (audience oblige?). A cultura puritana é claramente diminuída até à caricatura na sua adaptação de "A letra escarlate" de Hawthorne. E, em “O vento”, o que se pede à mulher não parece ser muito distinto do que se lhe pode ainda pedir um século depois: que ela se deixe de contos de fadas. As responsabilidades às quais uma mulher é vinculada por via do casamento não são consentâneas com vagos sonhos sentimentais. “Madame Bovary, c’est pas moi!” – diria Sjöstrom, se o casting a que ele próprio se submeteu (encarnando heróis de inequívoca virilidade como o Terje Vigen de Ibsen ou o Berg-Ejvind de Sigurjónsson) lhe permitisse tais exercícios de trans-empatia.
A história de Letty (uma Lillian Gish que poderia constituir oferta no mais contemporâneo dos mercados – se por mercado se entender aquele lugar onde se trocam hortaliças acabadinhas de colher…) é a de uma rapariga que um conjunto de acasos torna esposa de um homem não sonhado (na verdade, nem sequer sonhável), e que aprende a amar o seu destino com uma maturidade que não se confunde nem um pouco com cobarde resignação. Em vez de se evadir da paisagem inóspita (mas haverá alguma, debaixo do céu, que inóspita não seja de uma forma ou de outra?), Letty une-se a Lige para, em parelha, lutarem contra um vento que nunca deixará de os ameaçar.
O ar em movimento é o grande trunfo deste filme em que Sjöstrom atingiu a mais alta pressão canónica. É óbvio que, nas sequências paroxísticas do ciclone e do vento norte, ele constitui a metáfora da investida sexual do personagem Roddy, cavalheiro sofisticado e sedutor, mas com intenções desonestas (ou seja, não matrimoniais). O realizador, contudo, parece tão apaixonado pelo seu arrebatador comparante (e é isto que resgata os grandes orquestradores de analogias) que o deixa tomar conta de toda a encenação.
Este vento é o desmétodo que torna a performance de Lillian Gish tão íntima quanto exposta. A histrionia do seu cabelo, o melodrama do guarda-roupa – parecem tão justos e necessários quanto a legibilidade do pensamento no pergaminho facial da atriz. E, se o vento sexualiza a imagem feminina, ele não é menos ágil para insinuar a erótica subtil que acompanha toda a hagiografia – de “A paixão de Joana d’Arc” de Dreyer ao “Dogville” de von Trier, parece que os escandinavos sentem certo prazer na contemplação do martírio da mulher excecional.
O vento talvez tenha algo de milagre. Tudo tem, por certo, do delírio. As narrativas de Sjöstrom tendem para o clímax indissociável da revolta dos elementos naturais (o oceano em “O lobo do mar”, a neve em “Os proscritos”, o fogo em “Ritual do amor”, etc.), mas nunca até este filme ele lhes tinha permitido chegarem à revolução. É certo que as célebres sobreposições de “O carro fantasma” são justificáveis enquanto imagens quase tão ébrias como o seu protagonista. Ainda assim, a obra-prima sueca parece timorata ante o seu ex aequo hollywoodiano. Nada há na estória contada em “O vento” que se possa comparar à excitante fábula prometida pelo seu efeito especial. Desafiando todos os maçadores que velam pela verosimilhança, ao espetador é servido o supremo prazer infantil de ver um filme enlouquecer diante de si. Foi neste filme, neste, que o vento tudo levou.
Título original: "The wind
Data de estreia: 1928
Realização: Victor Sjöström (1879-1960)
Direção de fotografia: John Arnold
Interpretação: Lillian Gish, Lars Hanson, Montagu Love, Dorothy Cumming


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